Jesus Cristo: perfil de um comunicador fascinante

Alguns deles queriam prendê-lo, mas ninguém lhe deitou a mão. Depois, os guardas voltaram aos sumos sacerdotes e aos fariseus, que lhes perguntaram: “Porque é que não o trouxestes?” Os guardas responderam: “Nunca nenhum homem falou assim!”» (Jo 7,44-46).

Várias vezes, nos Evangelhos, está registado o assombro que atinge o auditório frente às palavras de Jesus, um rabino que «ensinava como quem tem autoridade, e não como os escribas» (Mt 7,29). O Jesus de todos os evangelistas é um orador fascinante; se por um lado Mateus, como se sabe, reparte ao longo do seu escrito cinco discursos solenes de Cristo, por outro, Marcos, mais atento às mãos do Messias e às obras que estas realizam, recolhe dois, constelando as outras páginas com inúmeros ditos e intervenções; Lucas oferece-nos uma série de parábolas originais, e João cunha uma linguagem solene, que coloca na boca de Jesus, sobretudo na «Hora» extrema (Jo 13-17). Há uma locução que se encontra frequentemente, de modo particular em Mateus: «Jesus abriu a sua boca para ensiná-los, dizendo…» (Mt 5,2). «A boca do Senhor falou», exclamavam os profetas (Mq 4,4). Da boca de Cristo, pregador ambulante, saem palavras que consolam e que inquietam, que convertem e que condenam, que justificam e que atacam. Elas tocam temas elevadíssimos e descem aos episódios quotidianos. Jesus «fala abertamente do Pai» e das «coisas do céu» (Jo 16,25 e 3,12). Mesmo depois da ressurreição, Ele aparece aos discípulos, «falando-lhes do Reino de Deus» (At 1,3). (…)

Podemos tirar algumas conclusões, a partir dos três modelos de comunicação (palavras, milagres, controvérsias) usados por Jesus. Enumerá-los-emos sem os aprofundar, embora merecessem uma análise muito mais sistemática.

Jesus é um comunicador fascinante. Parte do mundo feito de terrenos áridos, de sementes e de semeadores, de plantas daninhas e de messes, de vinhas e de figueiras, de ovelhas e de pastores, de cachorrinhos, de pássaros, de lírios, de cardos, de plantas da mostarda, de peixes, de escorpiões, de serpentes, de abutres, de caruncho, de ventos, de siroco e de nortada, de relâmpagos faiscantes e de chuvas ou de canícula.

Nos seus discursos, há crianças que brincam nas praças, banquetes nupciais, construtores de casas e de torres, assalariados rurais e rendeiros, prostitutas e administradores corruptos, porteiros e servos que esperam, donas de casa e filhos difíceis, devedores e credores, ricos egoístas e pobres reduzidos à fome, magistrados indiferentes e viúvas indefesas, mas corajosas; há moedas pequenas e grandes, há tesouros escondidos e mesas com alimentos puros e impuros, segundo as regras kasher judaico, e outras coisas ainda.

Cervantes, no seu célebre Dom Quixote, consegue recordar-nos, numa tirada, o estilo da pregação de Jesus, evocando uma passagem do Sermão da Montanha: «Deus não falta aos mosquitos, nem aos vermezinhos da terra, nem aos animaizinhos das águas; e é tão compassivo que faz nascer o sol sobre os bons e sobre os maus, e chover sobre os justos e os injustos» (I,18; cf. Mt 5,45; 6,26).

Na mesma linha, o escritor e jornalista Beniamino Placido evocava a força de apenas um só detalhe das palavras do rabino de Nazaré:

«Caem-nos os cabelos e ficamos desesperados. Por culposa vaidade. Mas também porque saboreamos – nessa desgraça –, a amarga caducidade da nossa existência. Isso é errado, dizem os Evangelhos. Nada é insignificante. Não se vendem porventura cinco passarinhos por duas pequenas moedas? Contudo, nem um deles é esquecido diante de Deus. E os cabelos da vossa cabeça também estão todos contados. Não temais, pois valeis mais do que muitos passarinhos (Lc 12,6-7). E noutro lugar (21,18): Mas nem sequer um cabelo da vossa cabeça se perderá.»

Cristo estabelece uma comunicação pessoal, direta, aberta à relação, fundada sobre o «tu» do outro que se encontra com Ele. Não é um guru que profere oráculos, nem um intelectual sofisticado e desdenhoso, nem um mestre esotérico. Além disso, Jesus aprecia tudo o que é concreto e essencial. Não fala por cima do ombro aos seus interlocutores, não se perde em banalidades, mas aponta para as expectativas decisivas, para as perguntas inquietantes, para as verdades últimas que explicam o presente. Cristo é, além disso, um anunciador global: não é um intelectual que confia apenas na mente e nas letras, mas também não é apenas um agente sociopolítico. Palavras e sinais, mensagem e ação, espírito e corporeidade estão unidos entre si numa revelação integral que conhece a proximidade total do outro. Não é por acaso que os Evangelhos atribuem a Cristo todo o espectro dos verbos expressivos: dizer, falar, fazer, escutar, ver, ir, caminhar, sair, entrar, chorar, exultar, gritar, lamentar-se, confiar, e assim de seguida.

Por fim, a comunicação de Jesus está orientada para o envolvimento, é um apelo, uma interpelação que solicita a adesão e que pode gerar a rejeição. Essa comunicação, se for aceite, torna-se comunhão, intimidade, amizade profunda: «Já não vos chamo servos, visto que um servo não está ao corrente do que faz o seu senhor; mas a vós chamei-vos amigos, porque vos dei a conhecer tudo o que ouvi ao meu Pai» (Jo 15,15). Estas componentes deveriam ser estruturais, inclusive para a comunicação eclesial. Na verdade, como escreveu o biblista Cesare Bissoli, «Jesus não é um modelo a copiar, mas a recriar; mais do que imitação que copia servilmente, deve ser seguimento obediente», capaz de encarnar nas novas e mudadas coordenadas histórico-culturais. Todavia, não é apenas o conteúdo, mas também o modo de comunicação de Cristo, que tem muito a dizer-nos ainda hoje.

ImagemRembrandt

 

Card. Gianfranco Ravasi
Presidente do Pontifício Conselho para a Cultura
In Quem és Tu, Senhor? – Encontros e desencontros com o Homem que mudou a História, ed. Paulinas
11.05.13

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