A voz que clama no deserto

Dom Canísio Klaus
Bispo de Santa Cruz do Sul (RS)

Durante os anos em que trabalhei no Mato Grosso, tive a oportunidade de participar de vários acampamentos para pescaria na beira de rios ladeados por densas florestas. Quando a gente se afastava do acampamento, os únicos companheiros se tornavam os animais e as árvores. As palavras se tornavam inúteis, uma vez que não havia ninguém por perto que as escutasse e me pudesse dar uma resposta. Vez por outra ousava dizer umas palavras em tom mais elevado para escutar o eco em meio à natureza.

Algo parecido acontece quando se está cercado de muitas pessoas, mas não existe ninguém que se disponha a prestar atenção ao que a gente tem a falar. Ou ainda, quando a gente fala, e ninguém presta atenção ao que dizemos.

Lembro disso ao recordar São João Batista, o padroeiro da Diocese de Santa Cruz do Sul, do Seminário de Linha Santa Cruz e de quatro paróquias da Diocese. Quando os judeus enviaram de Jerusalém sacerdotes e levitas para lhe perguntar quem ele era, declarou: “Eu sou a voz de quem grita no deserto: Endireitai o caminho para o Senhor” (Jo 1,23). Ao dizer que era a voz de quem grita no deserto, estava se referindo, certamente, à pouca repercussão que suas pregações estavam tendo. Algo semelhante acontece com a palavra da Igreja no mundo atual.

João Batista, apesar de perceber que eram poucas as pessoas que realmente estavam se convertendo, não recuou. Antes pelo contrário, sabendo que Deus lhe confiara a missão de preparar o caminho para a vinda do Salvador, assumiu com vigor esta missão, chegando ao ponto de denunciar Herodes pelos seus inúmeros crimes e por conviver com a esposa de seu irmão, Filipe. E foi esta coragem que decretou a sua morte.

Uma das lições importantes que João Batista nos deixou como legado é a disposição em servir na humildade. Quando alguns dos seus discípulos vieram lhe comunicar que as pessoas o estavam abandonando para seguir a Jesus, ele não se declarou decepcionado, mas, antes manifestou a sua alegria por este fato: “Esta é a minha alegria, e ela ficou completa. É necessário que ele cresça e eu diminua” (Jo 3,29-30). Oxalá a Igreja possa sempre ter esta atitude diante de Cristo e as lideranças também possam ter esta disposição diante da comunidade e da Igreja.

Que as comemorações de São João Batista revigorem a Igreja diocesana na sua missão profética. Que motivem as lideranças a se empenharem, com coragem e alma, para que a mensagem de Jesus Cristo seja conhecida e vivida na sua integralidade. Que nenhuma liderança desanime diante da pouca repercussão do seu trabalho, sabendo que, muitas vezes, a voz das lideranças, assim como a voz da Igreja como um todo, é uma voz que clama no deserto, na esperança de que, em algum momento, encontrará pessoas que a escutam e colocam em prática.

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