É tempo de rever nossas imagens distorcidas de Deus…

Ano A – 14°  Domingo do Tempo Comum –  06.07.2014

Falar de Deus é uma das atividades humanas mais apaixonantes e, ao mesmo tempo, mais perigosas, pois trata-se de dizer uma palavra sobre o mais profundo arquétipo do imaginário coletivo da humanidade. O risco de projetar em Deus nossos medos, tabus e interesses é bem real, e muito grande. É bom lembrar que toda palavra que dizemos sobre Deus permanece sempre uma palavra humana e limitada. A própria Palavra revelada é uma palavra de Deus inserida nas palavras humanas, e vem marcada por seus condicionamentos e possibilidades.

Na tradição dos hebreus, conhecer a Deus é entrar em relação com Ele, assumir Sua vontade como um projeto e um caminho para nossas decisões e ações. E isso significa romper com o estreito limite dos nossos interesses e medos e abrir-se a um horizonte no qual todas as criaturas são aceitas na sua dignidade inegociável. Dito de outra forma: conhecer Deus significa reconhecer-se filho ou filha, como alguém que não tem origem em si mesmo e na própria vontade, mas num Outro e num Além que lhe desperta e dá o ser.

Hoje temos consciência de que a imagem de um Deus violento e vingador não passa de um revestimento religioso dos infantis e imaturos medos e desejos de onipotência. Mesmo que alguns traços de um Deus violento e sanguinário estejam espalhados na própria bíblia, especialmente no Antigo Testamento, não podemos sobrepô-los aos traços mais originais que são exatamente o oposto, e são avalizados pela vida e pelo ensinamento de Jesus Cristo. O cristianismo não dá a mínima chance a uma teologia da punição e da violência.

Não consigo entender como foi possível que chegássemos a aproximar e identificar Jesus Cristo com a figura dos reis! Sua vida não mostra exatamente o contrário? Em Jesus Cristo, Deus mostra que prefere os estábulos aos palácios, as manjedouras aos tronos, a cruz à espada, a compaixão ao poder, os discípulos e discípulas aos exércitos alinhados, os pobres e doentes aos séquitos reais… E o pior é que a sede de realeza se encarna num anacrônico regime monárquico que rejeita o menor indício de democracia ou participação. Isso denota dívidas para com a carne, como diz Paulo!

Nas cenas que precedem o evangelho deste domingo, diante da pergunta dos emissários de um João Batista um pouco confuso dobre os traços do seu messianismo, Jesus responde chamando atenção para aquilo que está fazendo: cegos recuperam a vista, coxos andam, leprosos são purificados, surdos ouvem, mortes ressuscitam e pobres recebem boas notícias. E arremata: “Feliz aquele que não se escandalizar por minha causa!” Sim, porque havia gente que tropeçava nestas ações de Jesus, por considerá-las insignificantes ou inoportunas…

E Jesus prosseguiu sublinhando a falta de adesão e de resposta das cidades de Israel ao anúncio e às ações que aproximavam o reinado de Deus em favor dos pequenos. Neste contexto, podemos entender melhor a exultação profética de Jesus ao contemplar a fé límpida e a adesão operosa dos discípulos e do povo simples. “Eu te louvo, o Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste essas coisas a sábios e entendidos, e as revelaste aos pequeninos. Sim, Pai, porque assim foi do teu agrado.” Eles sim entenderam que a proposta de Jesus não é pesada, nem causa de tropeço…

E Jesus termina lançando um convite: “Venham para mim todos vocês que estão cansados e eu lhes darei descanso!” O cansaço nos vem da desilusão com os grupos e partidos que, abocanhando uma fatia de poder, fazem o contrário daquilo que pregavam. Mas nosso cansaço tem também uma raíz eclesial, e vem de uma Igreja que tem medo da participação popular e receio de se encarnar nas dores e tristezas, alegrias e esperanças dos homens e mulheres de hoje. Dói demais a ferida de uma Igreja que ambiciona privilégios e ainda é submissa aos instintos egoístas…

Deus Pai e Mãe, em Jesus nos revelas que és mais misericórdia que poder e mais compaixão que lei. Dá-nos teu Espírito, para que te descubramos como um peregrino que pede um copo de água e que, por isso, não nos esmaga com o peso da lei e não nos assustas com uma verdade abstrata. Revela-nos a mansidão que suscita um empoderamento que se alimenta da compaixão e da solidariedade. Impõe sobre nós teu leve fardo, aquele que corresponde aos nossos mais profundos e humanos anseios: externar a ternura, exercitar a amizade, experimentar a partilha, treinar a gratuidade. Assim seja!

Pe. Itacir Brassiani msf

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