Ser pai: dom e responsabilidade

Dom Murilo S.R. Krieger
Arcebispo de São Salvador da Bahia (BA) e Primaz do Brasil

Vão multiplicar-se hoje, em nossos lares, gestos de carinho e de amor. Por um dia, o pai será o rei de cada família. Receberá presentes e abraços, ouvirá o tradicional “Parabéns a você” e se emocionará ao saber que o filho distante está lhe telefonando. Todo presente será recebido com grande alegria: o desenho futurista do filho de cinco anos, a camisa que o mais velho comprou com economias do dinheiro da mesada e o prato de porcelana pintado pela filha.

 

Bem que, diante das homenagens, cada pai gostaria de expressar sua alegria e gratidão. Contudo, a maioria não tentará. Afinal, onde buscar palavras? Melhor mesmo é ficar quieto, sorrir e dizer um “Obrigado!”, mesmo que desajeitado.

No meio desse clima de festa, talvez não lhe sobre tempo para um momento de reflexão. Se tivesse condições de fazer uma rápida revisão de sua vida, possivelmente esbarraria logo na primeira pergunta: O que é mesmo “ser pai”? Ficaria um tanto perplexo ao constatar que a realidade que está enfrentando está longe dos ideais sonhados no tempo da juventude, do noivado ou dos primeiros anos de casado. Afinal, onde ficaram seus sonhos? Que vida é essa que impede a realização de nossos projetos e torna tão duro o dia a dia? Onde ficaram suas promessas de um diálogo constante e profundo com os filhos que teria?

Se parasse para refletir, constataria que quase nem os viu crescer. É difícil acreditar que eles tenham crescido tão rapidamente e já estejam com essa idade… Os problemas multiplicaram-se. O salário foi sempre inferior à soma das necessidades e dos desejos de todos. E as ideias e pontos de vista diferentes que, não poucas vezes, criam divisões dentro da própria família? E as discussões que se renovam diariamente em sua casa? Não é agradável perceber que não é o único a fazer a cabeça dos filhos. Há muito já constatou que enfrenta uma concorrência imensa, de forças desproporcionais. Aí está a televisão e a internet, os livros e as revistas, os professores e os amigos a disputarem com ele o domínio da cabeça dos filhos. Qual a influência que, como pai, tem realmente sobre eles? De que valerão suas preocupações e trabalhos? O que ficará no coração de seus filhos?

Se nesse dia conseguisse conversar e, particularmente, ouvir seus filhos, talvez percebesse que seu papel é muito mais importante do que imagina. Saberia que eles precisam muito dele. E que, justamente por causa desse mundo que os cerca e busca influenciá-los, mais do que nunca eles sentem uma necessidade imensa de seu carinho, de sua atenção e de seu sorriso de pai. Descobriria, especialmente, que seus filhos anseiam por gestos concretos de seu amor: um beijo, um abraço, um passar a mão na cabeça ou perguntas do tipo: Como está indo na escola? É verdade que você está namorando? Posso te ajudar?…

Mais tempo tivesse para refletir e concluiria que sua missão é uma participação direta no mistério do próprio Deus. Afinal, segundo a revelação de Jesus Cristo, Deus é Pai – Pai nosso. É nele que cada pai deve espelhar-se para aprender a ser um dom total, renovado e constante para seus filhos.

A reflexão poderia continuar. Interrompo-a para lembrar-lhe que há outros pais. Há aqueles que, neste e em todos os dias, estão preocupados é com a falta de alimento, de casa, de roupa e de remédios para seus filhos. Esses nem pensam mais em seus sonhos.

Colocado diante do Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo, cada pai pode, neste dia, pedir com confiança: “Senhor, é possível que eu não seja o pai que deveria ser. Mas tu me conheces e sabes o quanto eu quero ser melhor. Do fundo do meu coração, eu te peço: Dá-me um pouco de teu jeito de tratar teus filhos e filhas. Não te peço para ser o pai que sonhei ser, mas que eu seja um pai como tu queres que eu seja. Olha cada um dos meus filhos. Sabes o quanto eles são importantes para mim. Ajuda-me a manifestar isso com gestos e palavras que eles entendam. E, acima de tudo, sejas tu a acompanhá-los com teu amor. Afinal, antes de serem meus, são teus filhos e filhas, Pai!”

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