Especialista em bioética fala sobre regulação da natalidade e planejamento familiar

Por Elisangela Cavalheiro , 08 de Setembro de 2014

Para superar visões deficientes e negativas em relação à vida, a Comissão Nacional da Pastoral Familiar (CNPF) lançou no final de agosto o livro Regina (Regulação Inteligente da Natalidade). O livro indicado especialmente para os casais e jovens, versa sobre o espaçamento da gravidez não no sentido de “evitar os filhos”, mas sim para contribuir para o planejamento familiar em vista de uma paternidade e maternidade responsáveis. 

Foto de: reprodução.

Livro Regina - Regulação Inteligente da Natalidade

“O que a Igreja propõe é uma alternativa de vida
e de felicidade. Não se trata de impor nada
a ninguém – mesmo porque a imposição não
geraria verdadeiro amor – mas sim
de propor a felicidade”. 

“Muitas vezes, quando falamos de filhos na nossa sociedade, parece que estamos falando de doença – até mesmo os termos utilizados, como ‘evitar filhos’ remetem a isso. Quisemos mostrar uma ideia positiva da maternidade e paternidade responsáveis, de pessoas abertas à vida, mas que, em caso de necessidade, possam espaçar a gravidez”, frisa padre Hélio Luciano, um dos responsáveis pelo livro, membro da Comissão de Bioética da CNBB, que trata sobre as questões que envolvem a dignidade da pessoa. 

A publicação pretende ser um recurso a mais no esclarecimento dos questionamentos levantados pelas famílias sobre o tema. “Queremos somar esforços àqueles já existentes. Através de uma linguagem simples, mas ao mesmo tempo com embasamento científico, procuramos ajudar a que as pessoas possam se conhecer, conhecer seu próprio corpo e viver, de modo simples e saudável, a sexualidade conjugal”, sublinhou. 

A obra é resultado de pesquisas e reflexões de profissionais de áreas distintas, como a médica ginecologista com mais de 30 anos de atividade, Zélia Maria Gerent Dal Castel, a mestre em Direito e com estudos sobre biodireito, Maria Zoê Bellani Lyra Espindola, e o padre Hélio Tadeu Luciano de Oliveira, especialista em Bioética. 

O livro busca conciliar a teoria e a prática, a experiência profissional e o cotidiano familiar, o zelo pastoral e o diálogo com a realidade, a reflexão antropológica e a visão científica, o diálogo em família e a competência técnica.

Confira a entrevista que padre Hélio Luciano concedeu exclusivamente ao A12.com.  

A12 – Por que o nome ‘Regina’?
Padre Hélio Luciano – De um modo indireto, REGINA é a sigla que encontramos para Regulação Inteligente da Natalidade. Mas certamente a ideia do nome vem da associação da sigla com um título de Nossa Senhora – Regina é Rainha. Coincidentemente o livro saiu publicado exatamente na véspera da celebração litúrgica de Nossa Senhora Rainha. A homenagem a Maria vem pelo fato dela ser Mãe, dela nos ensinar essa disponibilidade à vida, dela viver, como ninguém, a maternidade responsável quando decidiu fazer a vontade de Deus e ser Mãe de Nosso Senhor Jesus Cristo.

A12 – Qual a proposta do livro e para quem ele é indicado?
Padre Hélio Luciano – A proposta do livro é de superar algumas visões deficientes e negativas em relação à vida. Muitas vezes, quando falamos de filhos na nossa sociedade, parece que estamos falando de doença – até mesmo os termos utilizados, como “evitar filhos” remetem a isso. Quisemos mostrar uma ideia positiva da maternidade e paternidade responsáveis, de pessoas abertas à vida, mas que, em caso de necessidade, possam espaçar a gravidez.

Ao mesmo tempo, queremos somar esforços àqueles já existentes. Através de uma linguagem simples, mas ao mesmo tempo com embasamento científico, procuramos ajudar a que as pessoas possam se conhecer, conhecer seu próprio corpo e viver, de modo simples e saudável, a sexualidade conjugal.

Nosso pensamento enquanto “gestávamos” o livro foi de poder atender os casais e também os jovens, sendo assim o livro está indicado para todas as famílias e para todas as pessoas que estejam dispostas a se conhecerem melhor. Trata-se de um conhecimento simples, mas que foi perdido ao longo das últimas décadas.

A12 – Como a Igreja compreende os métodos naturais de contracepção?
Padre Hélio Luciano – A “cultura da morte” infelizmente ainda sobrevoa nossos tempos e somos todos filhos deste tempo. É importante entender que a contracepção sempre seria um erro contra o próprio ser humano, independentemente do meio. A necessidade de espaçar uma gravidez da outra (ou inclusive – se necessário – decidir por não ter mais filhos) nasce da exigência da parentalidade responsável, mas, quando vivida de um modo inteligente e propriamente humano, não é contracepção.

 

“A abertura à vida e a parentalidade responsável são elementos essenciais para a felicidade humana. Não significa que haja o dever de ter uma quantidade determinada de filhos, mas sim todos aqueles e somente aqueles que Deus nos pedir…”.

A Igreja é Mãe e muito humana – e por isso se preocupa muito com seus filhos. O que a Igreja propõe é uma alternativa de vida e de felicidade. Não se trata de impor nada a ninguém – mesmo porque a imposição não geraria verdadeiro amor – mas sim de propor a felicidade. A abertura à vida e a parentalidade responsável são elementos essenciais para a felicidade humana. Não significa que haja o dever de ter uma quantidade determinada de filhos, mas sim todos aqueles e somente aqueles que Deus nos pedir, sabendo-nos colaboradores de Deus na tarefa de gerarmos seus filhos – e consequentemente os filhos da Igreja e da sociedade.

Neste sentido de abertura à vida e parentalidade responsável é que surge a possibilidade de recorrer aos meios naturais. Às vezes o uso do termo “meios naturais” parece opor-se a “artificial” e não é este o sentido aqui. Com natural se evoca aquilo que é propriamente humano – por isso preferimos no livro chamar de “Regulação Inteligente da Natalidade” porque é mais próprio do ser humano. Se fosse próprio da natureza humana que cada ato sexual gerasse um filho, não haveria um ciclo feminino com uma ovulação. Justamente pela natureza da sexualidade conjugal ser deste modo é que se pode recorrer à vivência do ato conjugal nos períodos inférteis e ainda assim estar aberto à vida.

A12 – A questão proposta pelo livro trata principalmente o tema do planejamento familiar, e não apenas como “evitar os filhos”?
Padre Hélio Luciano – Exatamente. Como dissemos anteriormente, a parentalidade (maternidade e paternidade) responsável é uma exigência da nossa natureza humana. Somos seres naturalmente inteligentes e é próprio da nossa natureza pensar – essa dimensão também inclui em pensar nos filhos que teremos, em amá-los já na decisão de tê-los, antes mesmo de serem concebidos. Também é próprio da nossa natureza ao amor decidir renunciar por um determinado tempo (e em caso de necessidade grave inclusive de modo definitivo) ao bem de ter um filho, de gerar um filho de Deus, da Igreja e da sociedade. Entende-se aqui a diferença de mentalidade na abertura à vida: aqui consideramos um filho como um grande dom que, por determinadas razões em um determinado momento, não podemos receber.

Tal planejamento deve ser vivido desde dentro do matrimônio e nunca como uma imposição externa. O casal deve planejar a vinda dos filhos e tal planejamento deve ser sempre revisto para poder acolher com generosidade a vinda dos filhos e também para poder renunciar a este grande bem quando assim for necessário, mas sem egoísmos. 

A12 – Os métodos naturais e os anticoncepcionais tradicionais são questionados principalmente por sua eficácia ou pela taxa de falha que apresentam na contracepção. Nesse sentido, os métodos naturais devem ser medidos apenas por sua eficácia? Quais fatores devem ser pesados nessa escolha?
Padre Hélio Luciano – Talvez essa confusão tenha sido uma das principais causas pela qual resolvemos escrever este livro. Quando se fala de “método natural” muitas pessoas imediatamente associam isto a duas ideias: “tabelinha” e “ciclos irregulares”. Certamente a chamada “tabelinha” apresenta muito pouca eficácia como método para espaçar a gravidez. Também a existência de “ciclos irregulares” não diminui a eficácia dos métodos para a Regulação Inteligente da Natalidade. No livro falamos brevemente sobre estes temas.

O método que chamamos “sintotérmico” possui uma eficácia de 99%, semelhante aos métodos anticoncepcionais mais eficazes do mercado e sem nenhum efeito colateral (diferentemente dos meios anticoncepcionais, que possuem muitos). Certamente pode haver alguma falha – assim como também existem nos métodos anticoncepcionais químicos ou físicos – mas dentro de uma mentalidade de abertura à vida sempre é vista de um modo positivo e não como um desastre existencial (ainda quando possa haver sofrimento).

Com certeza o respeito a quem somos, à nossa humanidade, à nossa saúde e à nossa inteligência deveria ser o fator primordial na eleição de um método para espaçar a gravidez e não a eficácia do mesmo. Porém, atualmente, podemos utilizar um método que nos respeite em todas essas dimensões e que possui a mesma eficácia de métodos que não o fazem.

Para adquirir o livro acesse a loja da CNPF ou ligue: (61) 3443.2900. 

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